segunda-feira, 15 de outubro de 2007

BELMONTE – BA – A FOZ DO JEQUITINHONHA - VIAJANDO PELO BRASIL E PELA ARTE (Samuel Rangel)





Na segunda-feira, após a reunião com a empresa que proporcionou a turnê da peça, fomos para Belmonte, conhecer o teatro e suas instalações, onde faríamos quatro apresentações no dia seguinte.

O trajeto feito pelo ônibus que ficou a disposição da Companhia, foi realmente bastante interessante. Pela estrada podíamos ver um pouco d mar, encoberto apenas por coqueirais que iam até a beira da areia.

A cada quilômetro surgia então uma estradinha de areia, e ao observar o seu caminho víamos ao longe uma daquelas casinhas de cinema, repousando à sombra dos coqueirais.

Naquele momento imaginei o quão agradável seria ter ali a justa aposentadoria, à beira do mar, à sombra dos coqueirais. Naquela situação a mais humilde das casas transforma-se em uma mansão. Uma paisagem capaz de tirar o fôlego.

E seguimos por aquela estrada, enquanto os meus pensamentos se embrenhavam na aventura de desvendar o que sentem as pessoas que moram ali.

Quando chegamos a Belmonte, vi o que restava de uma cidade que fora muito rica no ciclo do Cacau. A arquitetura da Lyra Popular, do ano de 1923, marcava bem a estirpe da cidade outrora abastada. A revelação do abandono surgia através do descascado da tinta e no pouco glamour que se via por ali.

Fomos até a prefeitura para encontrar o guardião da chave do teatro.

Após mais de duas horas esperando, surgiu a notícia de que ele havia ido pescar. Entre idéias de solução para o problema, finalmente a chave apareceu sem que eu saiba exatamente como.

Enquanto esperava, registro apenas a imagem do menino de cerca de dois anos, de cueca, divertindo-se enquanto tomava banho dentro de um balde desses de plástico.

Ao entrar no teatro, percebemos que os canhões de luz não tinham a gelatinas (película colorida que vai a frente da luz), mas olhando melhor, percebi que sequer lâmpadas eles tinham. O administrador do Teatro disse que deixaria o espaço em condições para o dia seguinte.

Na saída de Belmonte, encontrei algo que acho digno de registro. O restaurante e bar Açougue. Sim! Não era açougue. Era um bar restaurante, mas o nome era AÇOUGUE.

Quando entrei para comprar minha água, a simpatia da dona do lugar impediu que eu solicitasse qualquer tipo de explicação sobre o nome do lugar. De pronto ela ofereceu-me o Xixi de Guaiamu, levou-me até a cozinha para que eu conhecesse seu espaço, gentilmente abriu minha mão e depositou uma porção de carne de siri (em BC sairia algo em torno de cinco reais aquela porção). Ela então pediu que eu experimentasse sua moqueca. Agradeci e saí sorridente do Açougue, digo, do bar, digo do restaurante Açougue.

Sentei-me feliz com a receptividade e comentei o assunto com os demais. Rimos, enquanto eu gostaria de saber qual o nome do Açougue da cidade. Então pensei: Açougue BAR E RESTAURANTE.

Antes que eu pudesse achar isso muito previsível, o ônibus passou pela frente do Açougue. Qual nome? AÇOUGUE A FORÇA DA MULHER. Para quem não sabe, fica ali perto da Borracharia do Negão.

Chegamos à pousada faltavam cerca de quinze minutos para as sete horas. A moça da pousada informou que serviria o jantar em quinze minutos. Como precisávamos ensaiar a peça uma última vez antes da apresentação, às sete horas nos assentamos no refeitório.

Sete e quinze, e meia, e quarenta e cinco...

Oito, e quinze, e meia...

Preocupado, chamei moça da cozinha:

A senhora me desculpe, mas precisamos comer logo para poder ensaiar depois. Algum problema com a janta?

Ela me respondeu:

Não. Eu estava esperando vocês pedirem. Descobri então que, o pedido dos congelados na Bahia é feito na cozinha, e não no refeitório.

Dez horas começamos o ensaio no jardim da pousada. Descobrimos rapidamente que as formigas baianas não têm preguiça de morder. Ficamos com os pés como pantufas.

Acordamos às cinco horas da manhã de terça (o café só é servido as oito) e logo embarcamos no ônibus.

Chegamos a Belmonte. Sem tempo para outras coisas, fomos direto para o camarim. De lá podíamos ouvir a voz das crianças que entravam no teatro. A excitação das crianças era visível.

Começamos a peça. O palco no escuro e a platéia clareada. Tivemos algum problema em manter a atenção das crianças por mais de quinze minutos, pois elas se deliciavam com os pacotes de pipoca e com o suco que foram doados pela empresa antes do começo da peça.

Mas os olhos das crianças que estavam mais próximas ao palco era inspirador. Elas não conheciam aquilo.

Ao final da primeira apresentação, restariam ainda mais três ao longo do dia. Os Diretores da Companhia e da Peça nos pediram então mais interação com as crianças.

Começamos a segunda apresentação com outro espírito. E deu certo. Descemos do palco, transitamos entre as crianças e as conduzimos a cantar as músicas da peça. Ali ficou evidente o talento que os baianos têm para o ritmo.

Saímos para almoçar às margens do Jequitinhonha. Uma moqueca preguiçosa foi servida. Quando chegamos ao teatro, cerca de duas e meia, o teatro já estava lotado para a apresentação das três e meia. Remédio? Adiantamos a seção.

E foi assim também a última apresentação do dia.

Quando pensávamos em ir embora, várias pessoas que fazem uma oficina de circo nos pediram para conversar. Elas entraram e se sentaram. George Sada fez uma explanação sobre as diversas expressões artísticas, e ao final abriu para as perguntas.

A conversa então se prolongou por mais uma hora.

O que ficou extremamente claro naquele momento, é que mais do que aulas de teatro, ou qualquer outra coisa, elas queriam perspectivas. E isso nos emocionou bastante.

A falta de perspectiva é a pior das carências.

Não há motivo para o próximo passo. Não existe uma explicação lógica para se correr no lugar. Uma realidade dura, posta de forma ditatorial. A ditadura da realidade.

Esperamos que a arte liberte aquelas pessoas da falta de perspectiva.

Naquela cidade, outrora uma das prediletas do ciclo do Cacau, esperamos que o talento e a arte despontem e despertem um novo ciclo. O ciclo da cultura.

Uma cidade linda, na foz de um Rio maravilhoso, abandonada pelo interesse financeiro.

Quando for a Porto Seguro, conheça Belmonte, sente-se às margens do Rio Jequitinhonha e assista o por do Sol. Quando estiver em Belmonte, vá até a praça do coreto e tome um coco gelado na lanchonete “Café Sem Troco”, que toda manhã serve o mingau de milho com tapioca para os pescadores que hoje sustentam a cidade.

Conheça o Açougue Bar e Restaurante.

Quando chegar à Costa do Descobrimento, descubra você um Brasil encoberto.