quarta-feira, 21 de maio de 2008

O FILHO, O PAI E OS DOIS COBERTORES (Samuel Rangel)

Como não é difícil de acontecer, ele também separou-se de sua esposa por problemas de relacionamento. Aquilo que antigamente chamavam de incompatibilidade de gênios, mas hoje alguns chegariam a chamar de psicose matrimonial bipolar. Psicose em virtude de que, quando brigam, nem ele nem ela conseguiam enxergar um palmo além do nariz. Matrimonial, pois antes do casamento, eles faziam sexo 3 vezes por semana falhando em média a cada três meses, e depois que casaram, fazem sexo a cada três meses depois da terceira falha. E bipolar em virtude de que não existe briga de casal em que exista um só culpado.

Mas após o divórcio, depois de alguns meses de ferpas trocadas com a ex-mulher, ele conseguiu levar o filho para dormir em sua casa pela primeira vez. Feliz, foi ele buscar o picorruxo na casa da mãe, embarcou-o na cadeirinha, e foi feliz da vida para sua casa, não sem antes desfilar orgulhoso o seu pequeno herdeiro no Parque Barigui. Depois de babar sobre o menino até quase mata-lo afogado, foi convidado a jantar na casa de amigos. Lá chegando, serviu ao menino um macarrão delicioso acompanhado de um suco de uva.

Consciente de sua tarefa de pai, na hora certinha, pouco depois das nove da noite, embarcou novamente no seu carro e resolveu ir para a sua casa.

Banho no menino de dois anos e meio em plena banheira de hidromassagem, que o moleque adorou aliás (parecia uma piscina), mamadeira com todinho, pijaminha de pelúcia e cama. Para curtir mais aquele momento, o pai colocou o menino para dormir em sua própria cama. Ao ver aquele menino começando a fechar os olhinhos cansados, enquanto ouvia a história mais esdrúxula que o pai conseguiu inventar na hora, o silêncio tomou conta do ambiente. Então os olhos do pai ficaram deitados sobre a face de seu filho, como se fossem admiradores incondicionais da divina arte da vida.

Enquanto olha a criança, lembranças se alternam em alegria e tristeza colocando-o a meditar sobre o casamento, as brigas e a separação ao final do relacionamento. Mas entre lágrimas e sorrisos, o pai então percebe que se casar foi um erro, aquele filho, mostra que daquele erro surgiu um maravilhoso milagre, um maravilhoso acerto, uma benção para toda a vida.

Curvado sobre a criança durante horas, quando já passa da meia noite, o pai retira-se de seu próprio quarto para ajeitar a cozinha, após o que, vai até a sala para assistir um pouco de televisão antes de juntar-se ao seu filho em sono.

Perto da uma hora da madrugada, um choro vem do quarto, fazendo com que o pai levante-se com a agilidade de um esportista, transponha as barreiras da sala como um saltador, dobre a esquina do corredor como um piloto de Fórmula 1 e entre no quarto com os olhos assustados. Quando olha a cena, vê o molequinho sentado na cama chorando, e sobre o cobertor, uma quantidade enorme de macarrão e suco de uva.

O pai, sentido pelo choro do menino, consola-o, retira o cobertor decorado como um jogo americano de mesa, troca o pijama e o coloca para dormir novamente após algum tempo. Ao ver que o menino se acalmou, o pai retira o cobertor do quarto e vai até a lavanderia. Lá chegando, tem a atitude normal de colocar o cobertor de molho no tanque. Quando já saia da lavanderia, olhou para trás, e como se alguém lhe tivesse dito algo, volta, passa uma água no cobertor ainda no tanque, leva à máquina de lavar.

Após o processo de lavagem, o pai então resolve colocar o cobertor na secadora, que por sorte é 220 volts. Após rodar na máquina por cerca de uma hora, o cobertor é retirado, e a felicidade do pai é enorme, pois o mesmo está seco e quentinho.

Quando coloca o pé para fora da lavanderia, ouve novamente o choro do filho. Sem a energia da primeira corrida, ele corre até o quarto, quando vê a cena repetir-se em frente aos seus olhos. O moleque sentado na cama, o cobertor jogo americano, o macarrão e o suco de uva. Naquela hora, o pai percebe que aquele cobertor quentinho em suas mãos, é de grande serventia. Acalma o menino, coloca nele um moletom, pois pijama não tem mais, e faz com que o menino se deite.

Pensando de onde teria vindo tanto macarrão, o pai resolve repetir a operação. Passa uma água no tanque, coloca na máquina, e agora lembra de estender algumas toalhas sobre a cama. Volta à lavanderia, coloca o cobertor na secadora, e após o tempo de secagem, retira o cobertor seco e quentinho e vai até o quarto.

Seus ouvidos crescem para tentar perceber se algum choro vem do quarto. Não. O silêncio impera. O pai entra no quarto e olha novamente para a criança dormindo como um anjinho de moletom.

Então ele se deita, e quando os olhos estão quase fechando, um som característico de mais macarrão voador sobre o cobertor é ouvido, mas dessas vez não poupa o pai. O pai agora fazia parte do jogo americano. A criança chora, o pai consola, e aquele cobertor quentinho novamente está a serviço do acaso, pois o menino mostra ter boa mira. Acertou exatamente onde não estava a toalha.

Então o pai coloca novamente a criança para dormir com o carinho prórpio da paternidade, e volta a lavanderia para repetir o procedimento, apesar de não acreditar que o menino teria mais macarrão para dispensar. Se isso acontecesse, ele começaria achar que era pai de uma família italiana inteira.

Após os quarenta minutos de procedimentos, lá está o pai novamente entrando no quarto. Desta vez o pai olha para o filho com um certo medo. Será que vem mais macarrão por aí?
Quando o pai percebe, são quase seis horas da manhã. Ele não agüenta e sucumbe ao lado da criança. O pai finalmente dorme.

Com a velocidade de um flash, os seus olhos se abrem assustados, após sonhar com um inferno de macarrão. Ao acordar, vê os olhos gigantes de seu filho a pouco menos de dez centímetros de seu rosto. Ainda com medo do milagre da multiplicação do macarrão, tenta compreender o que o seu filho está falando.

Pai! Pai! Pai!

O filho repete insistentemente com o pequeno dedinho cutucando o rosto do pai.

O pai pede para que o filho o deixe dormir mais um pouco. É justo que o pai descanse um pouco mais. A noite não foi nada fácil, mas a resposta vem:

- Pai. Você tem que acordar. Você é o pai!

Então ele abre os olhos, e vê seu filho renovado, com toda a energia do mundo, sorridente, e sem nenhum macarrão sobre as cobertas.

Ser pai é assim mesmo, mas máquina de lavar e secar, são imprescindíveis para os pais divorciados. Alguns cobertores extras também ajudam bastante.

Nenhum comentário: