sábado, 10 de maio de 2008

SOB A SOMBRA DO ABSURDO (Samuel Rangel)

A imprensa tem se dedicado quase exclusivamente ao Caso Isabella, dando vulto ao absurdo, e algumas por vezes, ainda conseguem ampliar o amargo emaranhado de emoções que a notícia passa, ao colocarem uma trilha sonora acompanhado as imagens do caso.

Atônitos, sem saber como olhar ou falar a nossos filhos sobre o caso, testemunhamos o gigante absurdo tomando proporções ainda maiores, colocando toda uma sociedade em luto, calando alguns, enfileirando outros em portas de delegacia que as vezes parecem transformar-se em festa de quermesse. E a sombra estende-se fétida e doente sobre todos.

Mas o que chama a atenção, é quando um absurdo desta magnitude estende sua sombra e esconde outros tantos absurdos.

Assim, a aqueles que sorridentes gritam “assassino” na porta da delegacia, era de se perguntar qual o nome do menino que morreu ao ser arrastado pelo carro roubado no Rio de Janeiro. Qual a solução dada ao caso?

E por que não lembrar do caso da criança, de um mês, que foi espancada pelo pai, dando entrada no pronto socorro com as pernas fraturadas, onde morreu pouco depois. Qual o nome desta criança?

O caso da menina que vivia acorrentada na área de serviço. Como anda?

E o caso de crianças mortas em rituais de magia negra?

E a sombra do absurdo se estende e amplia, fazendo com que tantos outros casos fiquem esquecidos pelos já esquecidos brasileiros.

Esquecidos brasileiros. Tanto os brasileiros que se esquecem quanto os que são esquecidos. Na festa do horror dos maus tempos que se anunciam, cada um consegue enxergar um pouco além de seu nariz, não conseguindo se preocupar com algo maior que seu próprio umbigo
.
Esquecidos brasileiros. Aqueles que morrem e aqueles que deixam morrer. Os sem sorte e os de pouca sorte.

Esquecidos brasileiros. Aqueles que publicam e aqueles que compram o jornal.

João Hélio Fernandes, Evandro Caetano, Jussara da Silva Bernardo.

O leitor se recorda destes nomes?

Quantos mais haveremos de esquecer?

E quando o inimaginável absurdo maior colocar à sombra o nome de Isabella Nardoni?

Ao invés de festejar prisões nas portas da delegacia, é momento de se refletir o motivo destas delegacias estarem em evidência.

E isto somente ocorrerá quando a imprensa deixar de capitalizar a tragédia, e tomar seu papel legítimo à frente deste movimento, propondo a reflexão e discussão sobre os reais motivos desta patologia coletiva que afeta a sociedade.

Quanto aos políticos?

Quando estes se desocuparem de seu cargos eletivos e das manobras para se manter neles, e resolverem finalmente exercer seus mandatos, quem sabe a Lei se preste a nos retirar desta segunda idade das trevas.

Quanto aos brasileiros, apenas esperamos que não se esqueçam.

Nem mesmo estando à sombra do absurdo.