quinta-feira, 4 de setembro de 2008

O BAR DO LAXIXA, O CÃO FEROZ, E O DIA EM QUE TIVE VERGONHA DE ACERTAR


Aos quatorze anos, com não mais que cinco pelos no queixo, eu era sócio do Clube Cefet. Digo que era sócio do Centro Federal de Educação Tecnológica, em função de que eu passava mais tempo nas atividades esportivas e no clube do xadrez, do que em sala de aula. As salas de aula do Cefet na época tinham uma cor que a cromoterapia jamais aconselharia. Também é justo dizer que não entendo o real motivo de ter me embrenhando em meio aos transistores e resistências do curso de eletrônica, mas é justo registrar que havia meninas maravilhosas naquela escola. Exemplo maior era Isaura, de cabelos negros cacheados e olhos azuis. Por onde andará Isaura? Casada com certeza, divorciada talvez.

Mas como todo menino ansioso, de que me adiantaria ser sócio de tão belo clube e não participar de Natação (a primeira vez que entrei em uma piscina térmica), Voleibol (eu era uma espécie de líbero, mas como não existia isso na época, eu era um boleiro dentro da quadra), Basquete (aqui sim joguei alguma coisa e cheguei a treinar pelo Cefet) e Handebol (que cheguei a treinar pelo Cefet também, esporte para o qual realmente eu tinha jeito, apesar de que jeito no handebol é o que menos conta).

Com essa maratona diária de atividades esportivas, eu chegava em casa normalmente por volta das vinte e três horas, descendo do ônibus Vicente Machado, na esquina do açougue Primor. Naquela época, o bigorrilho não era um bairro iluminado, mas não havia assaltantes suficientes para dar início a um processo estatístico.

Lembro-me que certa oportunidade, Laxixa, o dono de um bar que ficava colado com o açougue e o mercadinho do Seu Freitas, havia adotado um cachorro, porém, ao fechar o bar, Laxixa colocava um caixote de madeira para fora com algumas folhas de jornal. Ali dormia o cão de guarda do bar.

Eu fui notificado da adoção da pior forma possível. Ao descer do ônibus, tão logo virei a esquina, lá estava o encorpado cachorro com os dentes a mostra. E eram dentes grandes e assustadores, cuja lembrança só me deixou em paz, ao fazer terapia no Canil da Polícia do Exército do Quartel General, apenas cinco anos mais tarde.

Quando percebi a fera com os dentes mirando minha altura média, percebi que era hora de correr. E corri mesmo. Um esportista, com 75 kg de músculo, correndo como velocista de um guapeca adotado de bar, mas com dentes bem convincentes. Absorvi a idéia de tanto reviver a situação. Lá estava o cão, lá estavam os dentes, e lá estava o Samuel correndo com um cão, digo, mais que um cão. Todas as noites, meu nada amistoso treinador me esperava na esquina para me aplicar o último condicionamento físico do dia.

Numa dessas noites, o cão que era extremamente inteligente, mas nem tanto, resolveu esperar o garotão mais próximo da esquina, realizando a primeira tocaia canina que tive conhecimento na vida. Ao virar a esquerda rente a parede, não tive tempo de reagir. Quando vi, lá estava a besta com os dentes cravados na minha canela. Consegui que o bichinho largasse o osso ao aplicar uma bela malada na orelha, com a mala do Cefet que tinha um transformadorzinho 12V/110V.
Acreditei que aquilo era suficiente.

Ao chegar em casa, e constatar os estragos da mordida, resolvi ocultar o ocorrido de meus pais. Antigamente, as vacinas anti-rábicas eram aplicadas bem no meio do umbigo. Sensação que eu não gostaria de reviver. Na farmácia do seu Américo, nas proximidades da Igreja dos Passarinhos, fiz o curativo e me virei sozinho. Ao menos a altura da mordida não havia danificado a calça de brim cinza, nem furado o meu sapato mocassim.

Naquela mesma noite, ao descer do ônibus, senti latejar a mordida no tornozelo, e resolvi passar mais longe da parede. Foi o primeiro ponto que fiz no jogo de cão e cagão com o cachorro. Ele estava me esperando colado na parede, mas ao ver que passei longe, avançou e eu corri sem dar a ele mais uma porção de canela para o jantar.

Nas noites seguintes, resolvi descer um ponto antes, para não me deparar com a perigosa besta, mas após andar duas quadras a mais durante uma semana, percebi que a ferida da mordida não ia cicatrizando bem. Voltei ao Seu Américo, que me disse que eu deveria evitar andar muito, ao que aplicou um antisséptico e mandou-me seguir a vida.

Já fazia mais de um mês que o animal me dedicava uma perseguição irracional. Fiquei revoltado, e fui conversar com o Laxixa sobre o devorador de estudantes que matinha à sua porta. Fui em marcha acelerada, lembrando o que hoje se chama de “um consumidor ciente de seus direitos”. Vou chegar lá e mandar o Laxixa dar um sumiço nesse cachorro, pensava eu.

Após três quadras de marcha acelerada, quando avisto o bar, vejo o devorador de canelas deitado a frente do bar. Lá estava o animal, que ao me ver a cerca de vinte metros, arreganhou os dentes e partiu em minha direção. E lá estava eu correndo novamente. Já não bastava os corridões noturnos que eu levava todos os dias, agora a anta tinha que fugir do cachorro de dia também?

Tentei por mais algumas vezes, porém, quando percebia o cão na frente do bar, eu desviava e seguia para o CEFET. Eu sabia que o cão não poderia montar guarda para sempre. Um belo dia, ao ver o bar, percebi a caixa vazia. Essa é a oportunidade. Eu havia me tornado um estrategista, e por isso eu venceria o cão irracional. Ao entrar no bar, fui direto ao Laxixa e mostrei-lhe a canela, dizendo que havia sido o seu cão que tinha executado tão belo serviço. Laxixa riu, e disse estranhar aquilo. Segundo Laxixa, o cão passava o tempo todo ali e não havia atacado nunca ninguém. Enquanto eu insistia na acusação, o cão lazarento entra no bar, com a cauda pitoca chacoalhando, e vai até Laxixa, que prontamente tira algo da compota e joga para o guapeca.
Pronto. Ali estava um cachorrinho angelical, balançando a caudinha cortada para o dono do bar. O interessante é que aquela gracinha, tinha exatamente as mesmas característica do cão que tentava me devorar pelas canelas todas as noites. Então Laxixa abaixa, dá uma coçada naquela cabeçorra quadrada, e diz: Não morda ele urso, ele é amigo! Ele é amigo! Aquele indecente do cão fez cara de que entendeu o recado, e até fiquei tranquilo, pois na frente de Laxixa eu dei uma coçadela nas costas do amigável cãozinho.

Ao descer do ônibus a noite, eu pensava que tudo havia sido resolvido, mas lá estava o cão novamente de tocaia, e a conversa civilizada que havíamos tido durante o dia, era cessar fogo entre árabes e israelenses. Foi só a ONU virar as costas e a guerra havia recomeçado. Em função daquilo, pensei em desenvolver um relacionamento amigável com o cão. Noites depois, na saída do CEFET, tive a idéia de comprar um pão. Antes de chegar na esquina, joguei o pão e o cão foi logo abocanhar. Enquanto ele comia, fui conversando com ele para tentar um relacionamento estável com o animal. Ao engolir o pão, o cão não havia percebido que eu tinha o jogado. E lá estava eu correndo pela enésima vez do feroz animal.

Mas isso não poderia durar para sempre. Definitivamente não. Não bastasse o estresse que eu tinha no CEFET, ainda tinha que me submeter aos ataques insanos daquela besta.

Uma colega minha de ônibus da Vicente, Amarilda, havia testemunhado alguns ataques pessoais do animal contra mim. Solidária ela me deu a solução do problema. Ela mesmo havia sido atacada pelo cão meses antes, mas apenas se abaixou, pegou um pedra no chão e atirou no cachorro. E ela registrou ainda que não era necessário acertar no animal. Era só jogar a pedra e o respeito se instalaria magicamente. Em função daquela estratégia, havia um acordo de paz entre ela e a fera. Eles tinham encontrado um ponto de equilíbrio no difícil relacionamento homem e animal.

Naquela noite, transtornado com a situação, quando desci do ônibus, decidi colocar um ponto final. Como o cão sempre estava de tocaia, eu não tinha certeza de que poderia pegar uma pedra já com o ataque em andamento. Então adiantei o expediente. Havia um pedra no chão que prontamente juntei sem fazer qualquer escolha. Passei a mala para a mão esquerda e segurei a pedra com a direita junto ao corpo. Afastei-me cerca de sete metros da parede que o cão usava de cobertura e andei na direção do embate. Ao alcançar o ângulo de visão do cão, ele saltou contra mim. Em uma reação pronta e rápida, atirei a pedra na direção do cão, e quando vi, lá estava ele estendido no chão logo após um ganido estridente. Resolvi acelerar o passo sem parar para esperar o cão acordar. Eu havia solucionado o problema e pronto.

Na manhã seguinte, ao passar pelo bar do Laxixa, vi uma aglomeração junto a caixa onde ficava o cão. Ao aproximar, percebi que o bolinho de pessoas olhava para o cão gravemente ferido, ao passo que um deles, dizia que aquilo havia sido atropelamento. Algum Opala 250 S, Maverick ou Galaxie, havia passado por cima do pobre animal que agonizava.

Ao me aproximar e compor o bolinho, o cão levanta os olhos para mim, e tenta sair correndo ao mesmo tempo que chora. Todos olham com estranheza, mas não causo nenhuma suspeita. A esposa do Laxixa olha para mim e diz: Ele está assutado. Foi atropelado esta noite. Peguei o rumo do ponto de ônibus com a certeza de que o cão não sobreviveria, o que mais tarde veio a se confirmar.

Quando Amarilda soube da morte do cão, veio me indagar sobre o ocorrido. No primeiro momento neguei, mas ao ser tranqüilizado por ela, lembrando que o cão era um peste, acabei confirmando a autoria do canicídio. E ela perguntou como eu havia conseguido matar um cão com uma só pedrada. Nem eu sabia a resposta, mas na conversa mais tranquila de quem pega o ônibus em paz, acabei percebendo a falta de sorte do cão.

Primeiro, o cão não tinha nada que ter se feito de santo para o Laxixa, ao mesmo tempo que o Laxixa não poderia fechar os olhos para a situação. Posteriormente vim a saber que eu havia sido uma espécie de vingador misterioso do bairro. O animal havia colecionado canelas durante um bom tempo.

Segundo, o cão poderia ter aceitado aquele pedaço de pão como uma proposta de trégua, ou mesmo pedágio.

Mas a real falta de sorte do cão, é que a primeira pedra que me apareceu na frente naquela oportunidade, era um dos históricos paralelepípedos da Vicente Machado ( não se fazem mais paralelepípedos como antigamente).

O segundo fator real que influiu no seu infortúnio previsível, foi de que eu treinava Handebol desde os meus onze anos, no Colégio Rio Branco, e tinha uma pontaria invejável, associada a um arremesso bastante forte, que havia entortado alguns dedos de colegas de esporte.

Por último, e o mais grave, é que alguém com o esfincter contraído, não pensa muito. Embora eu tivesse lembrado dos conselhos de Amarilda ao juntar a pedra, eu não consegui lembrar que não era para acertar o infeliz dentuço. Em um ato reflexo, o animal já era.

Senti muita vergonha de ter cometido aquele ato durante muito tempo, mas de certa forma, isso me facilitou muito o aprendizado do que era uma Causa Supra-legal de Excludente de Antijuridicidade, como fator decisivo na absolvição de um acusado. Eu já havia vivido uma Inexigibilidade de Conduta Diversa.

Estou ciente de que a situação permite várias críticas, e surge a imagem de minha amiga Lu, como protetora dos animais, furiosa e com o dedo jogando bilhar com a bola do meu nariz, mas embora eu tenha vergonha de ter agido certo (apenas certo demais), gostaria de invocar outras causas para afastar de mim qualquer condenação. Eu era menor de idade, e já se passaram 25 anos deste fato. O bar do Laxixa não existe mais, e o lapso temporal faz com que a pretensão punitiva tenha sido atingida já pela prescrição.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

O ANALISTA POLÍTICO AMADOR

Foto aérea de Curitiba na década de 50, colorida manualmente.


Se quando o assunto é Seleção Brasileira, todo brasileiro é um técnico, quando o assunto é política, todo brasileiro deveria ser um Analista Político. Não daquele tipo emplumado com teorias conspiratórias e com linguajar algébrico, mas ao menos, um ser pensante, com capacidade de analisar uma questão política. O problema é que o brasileiro leva mais a sério a Seleção Brasileira, do que a Política Brasileira. Cinco em cada dez tupiniquins, sabem desenvolver com habilidade o sistema quatro/quatro/dois do futebol, mas seria um alento encontrar um dentre estes mesmos dez, que soubesse o significado de termos como coligação, majoritárias, pluripartidarismo e legenda. E Esquerda e Direita? Social Democracia, Comunismo, Socialismo e Globalização? Seria mais fácil enxergar algum futuro político para o Brasil.

Mas para não ser pessimista, não é sorte apenas nossa essa situação política. O “grande xerife do mundo” (agora com aspirações de ampliar seu império para planos universais), também anda tropeçando nas próprias pernas.
Enquanto Bush é desconvidado da Convenção do Partido Republicano que pretende lançar a candidatura de seu pretenso sucessor, John Mccain, o candidato Democrata Barack Obama desafia o moralismo dando um selinho na esposa de seu vice.

Isso seria um escândalo, caso a vice Republicana Sarah Palin não deixasse vir a público a gravidez indesejada de sua filha, com o agravante de tornar-se pública ainda a informação de que seu marido transitou algemado por uma delegacia após ser preso dirigindo embriagado. E para provar que as coisas por lá andam complicadas, Sarah Palin ainda tem contra si uma denúncia de ter abusado do seu poder de governadora, para pressionar o chefe de polícia local a demitir o arteiro de seu ex-cunhado durante o processo de divórcio. E o mais incongruente agora, é que a “nacionalista candidata a vice do partido republicano”, é acusada de ter participado de um partido separatista do Alasca.. E eu que achava que a política brasileira é que ia mal? Uma nacionalista separatista? Eu achava que isso era coisa própria do pluripartidarismo brasileiro, onde um “mico” pula da esquerda para a direita, com a facilidade e rapidez de um símio mesmo.

Voltemos para a Terra de Vera Cruz. Que os tupiniquins falem de si, e esqueçam deles, americanos, antes que eles lembrem de invadir a “quase nossa Amazônia”. Também não acho que o momento seja oportuno para falar de Brasília, pois eu teria que comprar uma porção extra de grampos para anexar a este texto os últimos escândalos (O que é isso Ministro? O senhor já foi mais influente!). E da mesma forma acho oportuno deixar em paz o Governador do Estado, que anda muito ocupado com os “negócios de família” (Este sim tem demonstrado ser um homem de família e cuidado bem dos seus).

Se as próximas urnas falam de prefeito e vereadores, vamos falar de Curitiba.

Agora, com o alívio tolo de que os americanos andam enrolados em seu processo eleitoral, posso avaliar tranqüilamente os debates realizados pela Bandeirantes, os resultados das últimas pesquisas, e o pitoresco horário eleitoral gratuito.

Os debates puderam revelar claramente a que vieram os candidatos.

Alguns se candidataram cientes de sua derrota, mas simplesmente para defender uma idéia. Muito Louvável.

Outros, usam dessa campanha para alcançar publicidade que lhes garanta uma eleição para um cargo de menor importância nas próximas eleições. Muito esperto!

Existem alguns também os que são candidatos e não sabem bem porque, nem para que. Muito Interessante!

Um é candidato à reeleição, e outra é candidata do seu partido. Muito importante.

Nos bastidores da política, encontros são comuns para definir colaboradores e oponentes.

Uns servem aos interesses dos outros, na medida em que estejam do mesmo lado, e o que se tem, é um candidato com mais de 70% das intenções de voto, enquanto todos os demais não chegam a 30%. E o mais interessante, é que justamente este que tem a maioria absoluta das intenções de voto, é o de menor rejeição quando a pergunta da pesquisa é "em quem você não votaria". Será que isso não é suficiente para relaxar os ânimos?

Pois bem. Parece que a oposição acredita em algum milagre, e sinceramente, milagres no que se refere a política me assustam, pois creio que Deus não se mete nestas coisas. Qualquer evento "Sobrenatural" na política, é sempre criado nos caldeirões de magos com capuzes. Não é de se duvidar que alguma “denúncia esfumaçante” seja jogada na mídia em breve para tentar reverter a situação atual. Isso não é de duvidar quando dois partidos da oposição contam, um com o poder federal, e outro com o poder estadual a seu favor.

Mas o que se vê por hora é o esperneio dos perdedores, e por isso, se unem para confrontar em multidão ao candidato da reeleição. Eis um debate, mas quase sem nenhuma audiência.

Em que pese ter esse método funcionado por tantas e tantas décadas, acho que a oposição deveria se poupar de tal papel. O povo não é mais uma multidão de colonos com tridentes em busca das bruxas. Não estão enfrentando um "candidato surpresa", daqueles que surgem de um programa de rádio ou televisão, ou mesmo de um investidor oculto e misterioso. Trata-se de um político que trilhou o caminho mais lógico. Traçando um paralelo entre política e futebol, não se trata de um caso como o de Dunga, que iniciou sua carreira de técnico dirigindo a Seleção Brasileira.

Para poupar de dissabores a oposição, seria interessante analisar essa candidatura à reeleição mais a fundo. Primeiro, por que o mandato exercido nos últimos três anos e meio, manteve-se nos limites do bom senso, da discrição na hora certa, e da presença do poder municipal no momento devido. Isso de pronto reflete a aceitação da reeleição como melhor caminho a seguir para mais de 70% da população.

Mas não se trata de um simples prefeito tentando sua reeleição. O caminho que ele trilhou para chegar até ali, incluiu escala na Assembléia Legislativa por dois mandatos, e na prefeitura, como vice-prefeito e Secretário de Obras, justificando assim sua chegada à prefeitura. E os esbravejantes opositores me indagariam: onde estaria o mandato de vereador?

A pergunta poderia colocar este analista político amador em maus lençóis, porém, ao se dedicar um pouco de atenção aos fatos, a resposta vem ainda mais contundente. A história política deste candidato conta com mais de cinqüenta anos. Alguém gritaria então que não é possível, pois ele não tem tudo isso de vida.
Então a resposta vem documentada.


Diploma de Morador de meu pai,
quando estava na Casa do Estudante


Em 1957, meu pai chegava a Curitiba, vindo de Ponta Grossa, para tentar o ingresso em uma faculdade. Das poucas posses da família, fez hospedagem na Casa do Estudante, que lhe colocaria em contato com a política acadêmica. E nesta política acadêmica, conheceu José Richa, com quem exerceu cargo na União Paranaense dos Estudantes. Nesta mesma época, meu pai testemunhou o convite feito por Ney Braga a José Richa, para candidatar-se a Deputado Federal. Eleito, este mesmo José Richa, não exitou a fazer oposição ao regime militar e mesmo a Ney Braga, filiando-se ao MDB (este sim velho de guerra), partido que fez tanta frente à Arena, numa época em que artigos como estes justificariam um convite a uma ida sem volta para a Argentina.

Foto tirada no Salão Nobre da Faculdade de Direito Curitiba
31/10/1957 – Posse da Diretoria da UPE. Ao centro meu pai, Carlos José Silveira, e à direita José Richa


Este José Richa que foi Governador do Estado do Paraná por seus próprios méritos, pai do atual candidato à reeleição, foi quem lhe deu educação e lhe preparou para a vida pública, o que permite arrematar que um candidato as vezes tem mais experiência que sua própria idade.


A Chapa eleita em 1957

Ao centro José Richa


Fenômeno semelhante é o que acontece com Gustavo Fruet (com quem tive a honra de estudar na Faculdade de Direito da UFPr. Também testemunhei o convite para ingressar na vida pública após a morte de seu pai). Gustavo, ao longo de sua carreira política, vem colendo apoio popular e aprovação de seus mandatos. Para tanto basta invocar a votação que alcançou nas últimas eleições, quando foi reeleito Deputado Federal. Lembro-me orgulhoso de sua postura as vezes isolada nas CPIs.

Tanto Gustavo Fruet quanto o candidato à reeleição, demonstram claramente que uma família de tradição política, tem condições de preparar bons políticos. Então aquelas campanhas com jargões do tipo “É Hora da Mudança”, “Chega dos Mesmos”, “Pela Nova Política”, revelam-se imaturas e utópicas, ao mesmo tempo em que são vazias e nada construtivas. Quando a única proposta de um candidato é tirar o outro, não se tem absolutamente nada que não seja um “trono vazio”.

Não basta dizer que não é bom para invocar a substituição. O fato de mudar, não significa que obrigatoriamente estamos mudando para melhor. Eu mesmo me confesso um eleitor de Lula para o primeiro mandato (as vezes acho que não paro de repetir isso por não conseguir me perdoar), porém, mudamos para melhor? Que os mensalões e os outros escândalos respondam por mim.

Não vou sucumbir aos encantos de promessas de apoio do governo federal para aquela candidata, ou de apoio do governo estadual para aquele candidato, deixando de observar os fatos como eles realmente são. E creio que esse pensamente seja harmônico com 70 entre 100 curitibanos.

Levando-se em conta essa tendência, constatando que os dois políticos de maior aprovação na opinião pública são membros de famílias com história na política paranaense, acho interessante observar o surgimento de Renata Bueno, filha de Rubens Bueno, a quem dediquei meu voto em todas as eleições que disputou na sede de meu título de eleitor.



Renata Bueno, além de ter recebido toda a formação moral de Rubens Bueno, preparou-se para essa candidatura, motivo pelo qual, dedicarei minha atenção às suas propostas, e dentro do possível, apoiarei seus projetos. Não se trata de uma daquelas figuras políticas de maquiagem grossa, de sorriso falso, que tanto tentam nos ludibriar.
Renata Bueno, as vezes de pouca fala, pode estar a demonstrar outros caminhos para a política paranaense, longe dos extremismos aparentes que se desqualificaram num poder vermelho furta cor, ou mesmo dos políticos de português sofrível eleitos pelos programas policiais das rádios sensacionalistas. Renata Bueno tem a possibilidade, e agora também o dever de, junto com Beto Richa e Gustavo Fruet, demonstrar que o Paraná tem famílias com boa história política, que ainda são esperança para nosso estado e nosso país.

Lógico que esta regra não se aplica a maus políticos, pois algumas famílias políticas são responsáveis pela degradação do estado e do país (Você deve pensar que estou falando de ACM, e estou mesmo). A mesma regra que se aplica aos filhos, não necessariamente se aplica aos netos. Mas quando um político deixa bons frutos em sua carreira, é de bom alvitre olhar para os seus filhos, pois dentre eles, existe grande possibilidade de surgir um que continuará a desenvolver seu trabalho.

Mas isto, parte apenas e tão somente de um Analista Político Amador.

Ps.: Para alguns, causará estranheza minha manifestação política, mas aprendi com o meu silêncio, e dessa vez eu devo romper com ele.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

UNS DEBATEM, OUTROS SÓ BATEM, E UM SE BATE (Samuel Rangel)

E lá vamos nós novamente.

Lula, aquele que não sabia de nada em tantos escândalos, agora vem dizer que conhece aquela candidata muito bem. Em pleno horário gratuito ele dispara que conhece poucas pessoas com a capacidade deste e daquele. Na realidade, observando a postura de Lula nas CPIs que quase o derrubaram, percebemos que Lula não sabe de nada.

O Governador vem insinuar que se votar no candidato dele, ele vai ficar feliz, e quem ganha é a cidade. A democracia, dá lugar aos déspotas não tão esclarecidos, mas que sabem contornam as barreiras do nepotismo.

No meio de tudo isso, vem um candidato que nunca pisou no chão batido dizer que é o candidato dos bairros. Um outro diz que quer uma Curitiba “Sem Catracas”. O pior mesmo é aquele que manda “cortar” um debate ao vivo.

A bem da verdade, nesse troféu, “os piores das urnas”, temos que dividir os prêmios em algumas categorias, para não deixar de premiar cada pérola.

Enquanto as categorias não se apresentam, e o debate?

Ao mesmo tempo em que os candidatos da “oposição” levantavam a bola um para os outros chutar o atual mandato da prefeitura, as regras foram tão bem pensadas, que no final um candidato teve que perguntar a ele mesmo.

Nessa fase das eleições, quando realmente a vantagem que a reeleição registra nas pesquisas revela a solução já no primeiro turno, começam as baixarias, as denúncias, as insinuações e tantas outras formas de tentar reverter a desvantagem dos oposicionistas.

E é até de sorrir. Como nessa fase as agressões diretas e indiretas são o estilo usual dos candidatos, é de se tentar imaginar o candidato, pronto para descer a lenha nos concorrentes, ter que perguntar a ele mesmo. Imagino a resposta, o cidadão mudando a feição do rosto, e começando a responder cinicamente para ele mesmo.

Nesse debate, uns debatem, outros só batem, e um se bate.

Também surgiu uma propaganda bem interessante, onde uma alemã pergunta a um das candidatas onde está a camisa vermelha. Tudo bem, eu também gostaria de saber onde estão os velhos hábitos deste e daquele partido, mas por acaso as eleições são para a prefeitura de Blumenau? Ou será que eu não entendi alguma coisa.

Segue o baile, e solta a gaita gaiteiro. Enquanto muitos dançam nesse salão, outros decidem a história de copo na mão. O povo não tem tempo de pensar em política. Pensar em política é coisa de candidato, seus assessores, e algumas agência de propaganda.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

ELEIÇÕES – E AGORA? QUAL O CRITÉRIO QUE VOCÊ USARÁ PARA ESCOLHER SEU CANDIDATO?


O Horário Eleitoral que agora ocupa os horários nobres da televisão, além de se prestar ao lazer, presta-se também como uma oportunidade de aprofundar estudos antropológicos, sociológicos e mesmo biológicos, isto diante da diversidade de candidatos e de algumas verdadeiras pérolas de campanha.

Como na esfera das eleições majoritárias a questão já parece estar resolvida, graças a Deus, pois nenhuma “Luíza Erondina bem acabada” vai colocar em risco a reeleição do atual prefeito, a questão se resume à escolha dos futuros ocupantes das cadeiras da Câmara Municipal de Curitiba, os vereadores que durante quatro anos (e realmente é muito tempo, pois as coisas não vão bem), irão representar a vontade do povo na importantíssima tarefa de desempenhar o Poder Legislativo.

Esperando que minha ironia serja perdoada, chego a encontrar no programa eleitoral gratuito, um programa de humor muito melhor do que alguns que estampam a tela da televisão nos finais de semana.

Rimas pobres, dedões fazendo positivo, leituras sem vírgulas e um “s” que insiste em abandonar os plurais, são a tônica daquela meia hora. Lembro-me do tempo de criança, quando achava extremamente chata aquela uma hora dividida entre MDB e ARENA (Neste momento você percebeu que estou ficando velho).

Mas para enriquecer a comédia eleitoral, surge então o pluripartidarismo, permitindo que uma infinidade de figuras engraçadíssimas venham nos divertir com seus “slogans” ainda mais hilários. Eu mesmo, com o auxílio de minha atenciosa mãe, criei alguns para uma suposta candidatura própria:

“Não caia na arapuca! Vote no Samuca!”

Quando surgiu tamanha criatividade, que por mais pueril que seja, supera em muito alguns “slogans”, aos risos a família que almoçava resolveu lançar minha candidatura imaginária à câmara de Samuelandia do Meio.

Então minha irmã dispara: “Vote Samuca! Esse não mete a mão na cumbuca!”, mas imediatamente meu pai chacoalhou os bigodes e achou muito pior que a primeira.

Minha vó, que se deliciava com os bolinhos de carne moída, demonstrou seu talento poético disparando: “Se a situação está maluca, Vote Samuca!”, mas a minha consultoria de marketing, encabeçada pela diarista que nos visita todas as quintas, rejeitou de plano esse mote.

Meu pai, sempre caladão, deixou escapar um sorriso e sugeriu “Para acabar com esse Bordel! Vote Samuel Rangel! Bom o “slogan”, mas não creio que ele seria muito aceito, principalmente por aqueles que se entregam aos goles de cerveja em minha companhia.

Lembrando de alguns pastores de sei lá qual religião, minha mãe sugeriu: “Deus no Céu, e na Câmara Samuel Rangel!”, mas como já tem muita gente usando o nome de Deus nessas eleições, acho que não devo envolver o nome Dele em vão. Tudo bem. Enquanto paquerava outro bolinho de carne, justamente aquele bem torradinho, até consegui imaginar o Samuel Rangel com os dois polegares balançando no horário eleitoral, mas como não sou nada fotogênico, achei melhor pensar em algo mais sério, do tipo o cara durão.

E o a brincadeira seguiu, e a política uniu a família no almoço ocupando o assunto. Minha avó finalizou: Vote Samuel Rangel! Esse cumpre o papel! Quando perguntei para ela de onde veio a idéia, ela lembrou-me que estou estudando Artes Cênicas, e desempenhando alguns papéis no teatro.
Decididamente, melhor renunciar à minha candidatura à prefeitura de Samuelandia do Meio, e voltar a tratar o assunto com a seriedade que ele exige.

Essa diversificada galeria de candidatos, revela que o eleitor precisa escolher um candidato, e acho que estaria eu a colaborar com o meu país, se eu lembrasse a todos que para uma escolha, critérios são necessários.

Jamais nos livraremos daqueles que escolhem seus candidatos, e as vezes até trabalham para eles, em troca de cargos, nomeações, e todo tipo de vantagens. Também existem aqueles que escolhem o candidato pela cor dos olhos, pela voz, ou até mesmo pelo partido. Critérios como estes, justificam a situação política brasileira, revelando que a continuidade desse sistema, conduzirá o estado e o país a uma situação insustentável.

E não são poucos aqueles que sustentam sua campanha alegando apenas que a situação tem que mudar. Mas acho que fica bem claro que quando estamos diante de uma possibilidade de mudança, é necessário identificar quando a mudança é para pior.

Para esclarecer melhor o assunto, acho que o país passou por várias mudanças. Tanto criticaram Fernando Henrique Cardoso, e resolveram mudar para Lula (eu sei, pois fui dos que errou elegendo Lula a primeira vez). Essa mudança foi para melhor? Cada um terá seus critérios para avaliar e responder.

Então, a bem da leveza deste texto, vamos inverter a ordem natural, e indicar alguns critérios que não são os mais adequados na escolha do candidato.

Não vote apenas por que achou o (a) candidato (a) bonitinho (a). Lembre-se que isso é eleição, e não um programa para encontrar namorado (a) como aquele da Ana Maria Braga. Não confunda eleição com concurso de beleza. Se fossem coisas semelhantes, segundo as mulheres o Paulo Zulú seria presidente, e para mim, com certeza Daniela Cicarelli teria superado esse tal Paulo no primeiro turno mesmo. Seria um país bem interessante de ir a praia.

Não vote apenas por que ele (a) fala bem. Eleição não é concurso de oratória. Lógico que saber se expressar é fundamental para um político, até porque alguns candidatos mal sabem o que é uma vírgula. Se falar bem fosse tudo, com certeza o presidente seria Arnaldo Jabor.

Não vote apenas por que ele (a) é religioso (a). A Câmara Municipal não é uma igreja (aliás anda bem longe de ser uma igreja). Por mais que o cidadão seja religioso, orações não vão resolver nosso problema. E que Deus me perdoe. Não é que eu não acredite na Oração, mas acho que Deus não está interessado em se envolver em política. Pelo jeito que a coisa anda, poderia manchar sua reputação.

Não vote apenas por que ele (a) é seu amigo (a), parente, ou coisa que o valha. Todo mundo tem um amigo sacana, um parente vagabundo e uma coisa parecida absolutamente desonesta. Se você quer fazer algo pelos amigos, faça um churrasco, cante parabéns uma vez por ano, ou ponha uma foto no orkut. A Câmara não é churrasqueira de prédio para você ficar reunindo amigos nela.

Não vote apenas por que ele (a) é honesto (a). Não adianta nada a figura ser honesta, e ser uma mula. E mesmo se há alguma inteligência, hoje políticos não podem ser ingênuos. Se a honestidade fosse o suficiente, o Padre Júlio teria ganho qualquer sufrágio.

Não vote por que ele (a) te prometeu um cargo. O Brasil encontra-se na situação que está por que a maioria acreditou nas promessas do Lula. Depois ele (a) se elege e você não vai mais vê-lo por quatro anos. Nem telefone, nem carta. Somente aquelas porcarias daqueles cartões de Feliz Aniversário que os políticos insistem em mandar. (*Por obséquio. Senhores Políticos. Da próxima vez que me mandarem um cartão daquele, não esqueçam de anexar o cartão da bolsa família, bolsa teatro, bolsa advocacia, bolsa blogueiro, e bolsa bolsista para mim).

Não vote por que ele (a) é assistencialista. Não foram poucos os políticos que se elegeram com dentaduras, cadeiras de roda, e uma porção de esmolas. A Câmara tem a obrigação de desempenhar a legislatura objetivando um avanço social no sentido do bem comum. Existem organizações não governamentais que tentam suprir as ausências do governo. A Câmara deve exigir do Governo que supra suas próprias ausências.

Não vote apenas por que o (a) candidato (a) aparece demais. Muito material de campanha significa que ele tem muito dinheiro investido na campanha. E ter muito dinheiro investido, provavelmente permite que se tenha uma noção de quanto ele (a) deseja recuperar depois de eleito.

Não vote apenas para protestar. Existem os pessimistas, ou super pessimistas, e aqueles que acham que nem o pessimismo mais resistirá. Mas se você quer protestar, proteste com inteligênci. Para isso existem espaços como esse, adesivos de carro, e tantas outras maneiras de você lidar com os desconfortos do seu fígado. O voto é escolha. Então vote em um candidato que realmente tenha condições de representar sua revolta, ou chegue mais perto disso. Outro fator importante é conhecer a diferença entre voto branco e voto nulo.

Não vote apenas para ganhar. Eleição não é Futebol. Tente lembrar-se que você está votando, e não torcendo. Nesta infância de uma suposta democracia onde vivemos, já pudemos perceber que tem eleitor que quer ganhar. Se fosse assim, o Coritiba seria Governador do Estado e o São Paulo presidente do Brasil.

De qualquer forma, manifestamos desde logo que estamos atentos, e faremos uma coleta dessas campanhas primorosas. Surpreendente é que justamente a melhor campanha vem de alguém que não se esperava. Para finalizar, é extremamente elogiosa a campanha da Justiça Eleitoral. Se for pela melhor campanha, a Justiça Eleitoral está eleita.

Para você não ficar andando em círculos, não ficar sapateando na frente de policiais, não perder o trem, não ter que ficar ouvindo zumbido por quatro anos, e finalmente para não chorar quando o seu celular toca, leve a sério o seu voto. Quatro anos é muito tempo.
Sim.
Quatro anos realmente é muito tempo.
Pergunte para alguém casado.