Lembro-me com clareza da esposa do major “não sei o que”, saindo do túnel destruído pelos extra-terrestres no filme Independence Day. E para ser bem sincero, hoje ao transitar em Curitiba, tive mais ou menos a mesma sensação. Ruas movimentadas em dias normais, hoje convidavam aquelas esferas de feno seco como se fossem parte de uma cidade fantasma no melhor estilo velho oeste.
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E lá fui eu procurando sobreviventes da “febre do litoral” que assolou essa cidade. Encontrei primeiro Ronaldo, meu irmão adotivo, e fiquei feliz. Mas já nos primeiros momentos de nossa conversa, percebi que ele também estava com alguns sintomas e não escaparia à febre. Já no meio da conversa ele confirmou que estará descendo amanhã, dia 31 de dezembro, logo após ao almoço. Meu Deus! Até a Andressa Ramos vai viajar! Ela também pegou essa "Febre do Litoral".
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E peguei meu buggy tendo a certeza de que eu estava no lugar errado na hora errada. Com tantos contatos com o tal vírus da febre do litoral, e eu acabei aqui, resistindo. Mas apesar de ter essa sensação de estar errado quanto ao lugar e à hora, percebi que a coisa não é exatamente assim. Existem situações muito mais clássicas desses equívocos. Tanto é verdade que penso que eu poderia estar no lugar daquela turista, que estava em cima do elefante macho quando ele resolveu acasalar com aquela gostosa daquela elefantinha. Mas mesmo assim, calma lá. Mesmo em relação à turista, ela poderia estar em situação ainda pior. É de se imaginar ela no lombo da elefanta e não do elefante.
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Seja como for, Curitiba está às moscas. De certa forma, tirando os prédios de arquitetura ousada, Curitiba hoje me fez lembrar do tempo em que não havia engarrafamentos. É certo que mesmo que se houvesse engarrafamentos isso teria pouca importância para mim, pois na época eu não tinha carro. Apenas atrasaria um pouco mais o ônibus da linha Vicente Machado que sempre tão gentilmente me despejou na Praça Osório.
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E lembrando-me disto, passei a tarde fria deste verão curitibano, com aquele saudosismo teimoso e gostoso, do tempo que negócios eram feitos no fio de bigode em plena capital paranaense. Mas o tempo mudou, e hoje amigos se traem por dinheiro, irmãos se estapeiam por heranças, e mais uma porção de sacanagens estão a anunciar que o Bigorrilho, Curitiba, e todo o resto do mundo não é mais o mesmo.
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Tanto é verdade, que como sou o morador de uma das únicas residências com vida nesta cidade, todos os pedintes da Campina do Siqueira, Batel e Seminário, uniram-se com os pedintes do Bigorrilho e organizaram uma respeitável fila em frente a minha campainha. Atendi bem aos quatro ou cinco primeiro, mas depois disso, ficou insuportável. E o mais engraçado é que eles ainda resolveram começar a ofender minha honra e de meus familiares quando eu disse que não havia mais dinheiro, não havia mais comida, e nem o raio que o parta. Ora! Será que a prefeitura não tem plantão? Façam-me o favor senhores pedintes, pois se ficar em Curitiba na passagem do ano que vem, vou estabelecer senhas e horário de atendimento.
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E não foram só as ruas que ficaram vazias. Hoje ao acessar a minha conta no orkut, tive um surto depressivo, normalmente visitado por cerca de cinquenta pessoas todos os dias, hoje havia o registro de três minguadas visitinhas de nada. Eu até poderia escrever esse nada com “m”.
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Quando cliquei sobre o BuddyPoke, flagrei o bonequinho dormindo em pleno horário de expediente. Mas o que é isso? Acabei resolvendo perdoar o pequeno cidadão virtual por guarda por ele uma estima especial.
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Tentei acessar o messenger na busca de algum sobrevivente. E lá estava eles todos verdinhos bem no canto de minha tela. Ao chacoalha-los fui surpreso de saber que eles estão na praia também. Pensei comigo então numa sugestão para o messenger. Além dos clássicos “on line”, ausente, ocupado e tantas outras coisas, que normalmente as pessoas completam com tomando banho, escovando os dentes ou chapiscando a latrina, há algo que poderia ser colocado a disposição dos usuários: “NA PRAIA” que com certeza todos os meus amigos completariam com UH UH UH! Foca animal!. Também seria possível que no bonequinho verde, aparecesse um óculos escuros e uma sunga escrito “I love matinhos”.
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Como comecei e me irritar com as pessoas que estava no msn e na praia, resolvi abrir meu email. E pronto. Nesse momento tive certeza. O mundo acabou, ou Jornal Nacional foi gravado ontem, e eu estou aqui sozinho. Nenhuma, absolutamente nenhuma daquelas correntes do tipo, se não passar vai acontecer isso ou aquilo. Nenhum email daqueles que anuncia uma promoção que aquela super mega power plus multinacional está dando computadores de graça. Nem mesmo uma email de sacanagem daquele amigo maníaco. Apenas aquelas mensagens da revista Veja e do Correio. Mas isso eu sei que quem manda são máquinas. Realmente o mundo acabou.
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Eu sabia que o mundo não andava bem. Aliás, eu já havia até falado por aqui. Mas o mundo acabar justamente entre essas datas festivas, e o pior, ninguém pra me avisar. E pior ainda é pensar o tanto de promessas de ano novo que não serão cumpridas no ano que vem, apesar que não seriam mesmo se o mundo não acabassem.
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Mas se o mundo acabou, eu estou escrevendo para que?
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Tem alguém aí?
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Eu estou parecendo o Will Smith no filme “Eu Sou a Lenda”.
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Você está aí?
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Mas não era exatamente ele quem fazia o tal major que acabou com a nave extra-terrestre e ainda foi fumar um charuto? Nossa! Que coinciência... Isso chega a dar arrepios!
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Alô!
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Ninguém responde, mas acho que foi.
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Alô!
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É. Não adianta mesmo.
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Mas quem sabe seja um sonho e eu acorde no ano que vem.
terça-feira, 30 de dezembro de 2008
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
FILOSOFIA CURTA E GROSSA (Samuel Rangel)
Aprendi com o tempo, a misturar bons interesses dentre as minhas boas intenções. Só assim venci a ingenuidade que insiste em nortear a alma de artista.
Buquê de Pessoas
Flores
são às vezes o retrato fiel da pessoa a quem nós as entregamos.
Imperfeitas e inexatas por um lado, e irretocáveis por outro.
Tão logo os dedos se abrem, seu perfume estará em nossas mãos.
Em seu silêncio falam muito, um silêncio que se ouve.
Flores são essas expressões para as quais não há palavras.
Muito mais do que tudo que somos e menos que o todo.
Nascem para enaltecer, emocionar e causar admiração
Assim como as pessoas as quais nós as entregamos.
Flores, em pétalas assimétricas e cores calculadas.
Assinadas por um Criador surpreendente e imprevisível,
Assim como as pessoas as quais nós as entregamos.
Flores são pequenos espelhos da lua que brotam do chão,
e nós admiramos, pegamos e as entregamos a quem amamos
Assim como as pessoas as quais nós as entregamos.
quinta-feira, 25 de dezembro de 2008
AMIGO SECRETO, A CEIA E OUTRAS COISINHAS. ACERTOS E DESACERTOS NA NOITE DE NATAL MODERNA
Analisemos então. Das diversas formas, invenções, tradições e ilações da noite natalina, quais realmente são aquelas que guardam algumas relação com o que realmente tem valor. Parece-me que da forma que estamos comemorando o Natal, estamos nos metendo em uma porção de dificuldades que acabam, destroem, e expulsam de nossa cabeça qualquer possibilidade de festejar o Natal em paz. É importante lembrar que todos estão saindo da fase estressante da busca de presentes, decepcionados com o décimo terceiro, preocupados com a viagem para a praia. Então a noite de Natal deve ser dissecada e revista, para que os pequenos detalhes incômodos sejam cautelosamente extraídos de nossos hábitos.
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Mas nem tudo é negativo. Algumas idéias novas que foram inseridas pela realidade atual são bem interessantes. Uma delas é aquele sistema de Amigo Secreto no qual nem você sabem quem é que vai receber seu presente. Cada um leva seu pacote e o coloca sob a árvore. Após isso, números são distribuídos dentre os presentes que irão participar da brincadeira. Quando sorteado o seu número, você vai até a árvore e escolhe o seu presentinho. Você volta ao seu lugar como um bom menino, abre o pacote e mostra a todos o que escolheu. O primeiro lado positivo é que você nem sabe quem comprou aquele presente, e se for um sabonete da Avon em forma de anjinho, você nem tem como olhar feio para ninguém.
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Mas aí é que começa a diversão. Outro número é sorteado e a pessoa levanta-se e vai escolher o seu. Porém, se esta pessoa gostou do presente que você escolheu, ela pode vir com a maior cara de pau e tomar o seu pacote aberto, retirando-o de suas mãos sem qualquer constrangimento, e tudo isso em meio a gargalhadas da família inteira. E lá vai o primeiro ensinamento do Natal, fazendo com que você aprenda a lidar com a perda.
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Mas calma, lógico que você não vai ficar sem presente. Após o roubo qualificado pela cara de pau do seu cunhado, você tem direito de escolher outro que esteja embaixo da árvore. E lá vai você, novamente, e desta vez você nem quer algo tão bom, pois não deseja que o próximo sorteado venha tirar de suas mãos o precioso pacotinho que você tinha gostado tanto.
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Esse é um sorteio de amigo secreto bem interessante, e o bom é que, além de afastar qualquer tipo de discriminação (você não vai discriminar sua sogra por exemplo, pois nem sabe quem vai ganhar seu presente) ele é pedagógico. Exatamente. Além de ensinar a lidar com a perda, ele é pedagógico pelo fato de que você descobre que ficar na média já está bom. Se aquele sabonetinho não parar na sua mão no final da brincadeira, já está valendo. Isso significa que o empate, fora ou dentro de casa, já é um bom negócio.
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Lógico que, se você não fizer uma boa oração antes de tudo as coisas podem ficar feias. Também é de bom alvitre evitar que membros da família entrem com objetos contundentes para o sorteio. Outro elemento de cautela bastante positivo, é levar as regras escritas e afixar em uma parede antes do começo da brincadeira, pois sempre haverá alguém discutindo as regras. Se você tiver advogado na família, escreva as regras por artigos, incisos e alíneas, evitando deixar lacunas, mas mesmo assim, tome a cautela de chamar um vizinho fortão para a mediação para o caso do doutor resolver questionar alguma coisa a mais.
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Outro elemento pedagógico, é que é a mais pura demonstração de que os últimos serão os primeiros. Quanto menos pessoas ficarem para depois de você, menor a possibilidade de que alguém venha lhe tomar o seu pacotinho mediano das suas mãos.
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Mas em nível de sugestão, gostaria de dizer que acho interessante que pessoas acima de noventa anos, sejam classificadas como “café com leite” (não vale roubar o presente delas). Tente imaginar meu sobrinho de noventa quilogramas tentando tirar o presente de minha avó de noventa anos. É um caso típico onde noventa contra noventa não é justo e nem vai dar empate (apesar de que minha avó chegou a emparelhar a contenda por alguns instantes antes de capotar para trás do sofá da sala).
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Agora todo mundo sabe que o Natal é mais que Amigo Secreto e presente.
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Depois do lado material, é bem provável que o lado espiritual do Natal se proponha. Então alguém pede para fazer uma oração, e outro completa. Evite ladainhas, e rodeios. Vá direto ao ponto, para evitar que no final das contas, a coisa se estenda mais que a Missa do Galo (com o devido respeito).
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Você nota que algumas pessoas no meio da oração, começam a rezar para aquele Tender sair flutuando direto para a sua boca. Outro fica de olho no Fios de Ovos e nas cerejas. Mas aqueles que realmente têm sua religiosidade, estarão lá orando e manifestando sua fé. O único cuidado é se crenças divergentes se encontrarem na mesma sala. É importante que os presentes evitem discussões dogmáticas na noite de natal. Convidar seus cunhados já é problemático, mas se eles entrarem em discussões sobre a fé, a coisa vai acabar complicando.
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Acabada a fase da oração, alguém sugere uma canção clássica de Natal, porém, vamos combinar: canta que sabe o tom e a letra! Aqueles que não tiverem noção de tom e afinação, balbuciam as palavras bem baixinho. Mas aqueles que não sabem a letra, por favor não façam nada. É difícil ouvir uma versão alternativa para Noite Feliz. Além disso, o pior é que, ao começar a cantar errado, os “sabem nada” abrem oportunidade para que surjam os maestros. Exatamente. Então antes do tempo do verso, alguém fala a letra bem alto para que todos cantem certo. Conseguem imaginar? Não. Então eu desenho. Isso acaba criando uma versão de Noite Feliz no estilo Padre Marcelo Rossi.
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Mas após tudo isso, vem a comida.
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Eu apenas não entendo uma coisa. Se o Natal é uma noite de confraternização, por qual razão alguém inventou essa história de que, para todo mundo comer como louco, alguém tem que ficar torrando a barriga no forno para assar aquele peru do tamanho de um ganso. Aliás, isso é uma coisa interessante. Quanto maior a dificuldade financeira da família, maior é o peru para a ceia. Não é difícil ver pessoas se armando nos setores de ferramentas daquele supermercado, para enfrentar a briga no setor de congelados.
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E esse exagero acaba dificultando a própria confraternização, pois todos sentam-se a mesa como se preparassem o estômago o ano inteiro, e não conversam durante o jantar de horas, porque alguém combinou que falar de boca cheia é falta de educação. Depois que acabam o jantar, as sobremesas completam os últimos espaços vazios das entranhas de todos os presentes, e após isso, ninguém começa uma conversa interessante. O que se vê é uma multidão se jogando nos sofás (agarrada ao seu presente do Amigo Secreto) que mal conseguem mexer os olhos. E lá se vai mais uma vez a possibilidade de qualquer tipo de confraternização.
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Após isso, cada um entra no seu carro, e alguns entram no carro do outro, para se dirigirem empanturrados para as suas residências, para que no dia seguinte, tudo isso se repita. A vantagem é que no dia 25, ninguém vai se ferir novamente no amigo secreto.
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Ps.: Tirando as caricaturas e exageros, esse é um texto que busca apenas trazer algum sorriso para o leitor, pois meu sobrinho não tem noventa quilogramas e minha avó, apesar de ter noventa anos, não se machucou quando tombou para trás do sofá. (47290)
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Mas nem tudo é negativo. Algumas idéias novas que foram inseridas pela realidade atual são bem interessantes. Uma delas é aquele sistema de Amigo Secreto no qual nem você sabem quem é que vai receber seu presente. Cada um leva seu pacote e o coloca sob a árvore. Após isso, números são distribuídos dentre os presentes que irão participar da brincadeira. Quando sorteado o seu número, você vai até a árvore e escolhe o seu presentinho. Você volta ao seu lugar como um bom menino, abre o pacote e mostra a todos o que escolheu. O primeiro lado positivo é que você nem sabe quem comprou aquele presente, e se for um sabonete da Avon em forma de anjinho, você nem tem como olhar feio para ninguém.
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Mas aí é que começa a diversão. Outro número é sorteado e a pessoa levanta-se e vai escolher o seu. Porém, se esta pessoa gostou do presente que você escolheu, ela pode vir com a maior cara de pau e tomar o seu pacote aberto, retirando-o de suas mãos sem qualquer constrangimento, e tudo isso em meio a gargalhadas da família inteira. E lá vai o primeiro ensinamento do Natal, fazendo com que você aprenda a lidar com a perda.
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Mas calma, lógico que você não vai ficar sem presente. Após o roubo qualificado pela cara de pau do seu cunhado, você tem direito de escolher outro que esteja embaixo da árvore. E lá vai você, novamente, e desta vez você nem quer algo tão bom, pois não deseja que o próximo sorteado venha tirar de suas mãos o precioso pacotinho que você tinha gostado tanto.
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Esse é um sorteio de amigo secreto bem interessante, e o bom é que, além de afastar qualquer tipo de discriminação (você não vai discriminar sua sogra por exemplo, pois nem sabe quem vai ganhar seu presente) ele é pedagógico. Exatamente. Além de ensinar a lidar com a perda, ele é pedagógico pelo fato de que você descobre que ficar na média já está bom. Se aquele sabonetinho não parar na sua mão no final da brincadeira, já está valendo. Isso significa que o empate, fora ou dentro de casa, já é um bom negócio.
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Lógico que, se você não fizer uma boa oração antes de tudo as coisas podem ficar feias. Também é de bom alvitre evitar que membros da família entrem com objetos contundentes para o sorteio. Outro elemento de cautela bastante positivo, é levar as regras escritas e afixar em uma parede antes do começo da brincadeira, pois sempre haverá alguém discutindo as regras. Se você tiver advogado na família, escreva as regras por artigos, incisos e alíneas, evitando deixar lacunas, mas mesmo assim, tome a cautela de chamar um vizinho fortão para a mediação para o caso do doutor resolver questionar alguma coisa a mais.
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Outro elemento pedagógico, é que é a mais pura demonstração de que os últimos serão os primeiros. Quanto menos pessoas ficarem para depois de você, menor a possibilidade de que alguém venha lhe tomar o seu pacotinho mediano das suas mãos.
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Mas em nível de sugestão, gostaria de dizer que acho interessante que pessoas acima de noventa anos, sejam classificadas como “café com leite” (não vale roubar o presente delas). Tente imaginar meu sobrinho de noventa quilogramas tentando tirar o presente de minha avó de noventa anos. É um caso típico onde noventa contra noventa não é justo e nem vai dar empate (apesar de que minha avó chegou a emparelhar a contenda por alguns instantes antes de capotar para trás do sofá da sala).
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Agora todo mundo sabe que o Natal é mais que Amigo Secreto e presente.
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Depois do lado material, é bem provável que o lado espiritual do Natal se proponha. Então alguém pede para fazer uma oração, e outro completa. Evite ladainhas, e rodeios. Vá direto ao ponto, para evitar que no final das contas, a coisa se estenda mais que a Missa do Galo (com o devido respeito).
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Você nota que algumas pessoas no meio da oração, começam a rezar para aquele Tender sair flutuando direto para a sua boca. Outro fica de olho no Fios de Ovos e nas cerejas. Mas aqueles que realmente têm sua religiosidade, estarão lá orando e manifestando sua fé. O único cuidado é se crenças divergentes se encontrarem na mesma sala. É importante que os presentes evitem discussões dogmáticas na noite de natal. Convidar seus cunhados já é problemático, mas se eles entrarem em discussões sobre a fé, a coisa vai acabar complicando.
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Acabada a fase da oração, alguém sugere uma canção clássica de Natal, porém, vamos combinar: canta que sabe o tom e a letra! Aqueles que não tiverem noção de tom e afinação, balbuciam as palavras bem baixinho. Mas aqueles que não sabem a letra, por favor não façam nada. É difícil ouvir uma versão alternativa para Noite Feliz. Além disso, o pior é que, ao começar a cantar errado, os “sabem nada” abrem oportunidade para que surjam os maestros. Exatamente. Então antes do tempo do verso, alguém fala a letra bem alto para que todos cantem certo. Conseguem imaginar? Não. Então eu desenho. Isso acaba criando uma versão de Noite Feliz no estilo Padre Marcelo Rossi.
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Mas após tudo isso, vem a comida.
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Eu apenas não entendo uma coisa. Se o Natal é uma noite de confraternização, por qual razão alguém inventou essa história de que, para todo mundo comer como louco, alguém tem que ficar torrando a barriga no forno para assar aquele peru do tamanho de um ganso. Aliás, isso é uma coisa interessante. Quanto maior a dificuldade financeira da família, maior é o peru para a ceia. Não é difícil ver pessoas se armando nos setores de ferramentas daquele supermercado, para enfrentar a briga no setor de congelados.
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E esse exagero acaba dificultando a própria confraternização, pois todos sentam-se a mesa como se preparassem o estômago o ano inteiro, e não conversam durante o jantar de horas, porque alguém combinou que falar de boca cheia é falta de educação. Depois que acabam o jantar, as sobremesas completam os últimos espaços vazios das entranhas de todos os presentes, e após isso, ninguém começa uma conversa interessante. O que se vê é uma multidão se jogando nos sofás (agarrada ao seu presente do Amigo Secreto) que mal conseguem mexer os olhos. E lá se vai mais uma vez a possibilidade de qualquer tipo de confraternização.
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Após isso, cada um entra no seu carro, e alguns entram no carro do outro, para se dirigirem empanturrados para as suas residências, para que no dia seguinte, tudo isso se repita. A vantagem é que no dia 25, ninguém vai se ferir novamente no amigo secreto.
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Ps.: Tirando as caricaturas e exageros, esse é um texto que busca apenas trazer algum sorriso para o leitor, pois meu sobrinho não tem noventa quilogramas e minha avó, apesar de ter noventa anos, não se machucou quando tombou para trás do sofá. (47290)
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