quarta-feira, 30 de abril de 2008

UM PENSAMENTO (Samuel Rangel)

'Se um dia disserem que seu trabalho não é o de um profissional, lembre-se: a Arca de Noé foi construída por amadores; profissionais construíram oTitanic'

terça-feira, 29 de abril de 2008

SERVIÇO DE UTILIDADE PÚBLICA (Samuel Rangel)






Durante a divulgação da peça Analice em Busca do Homem Perfeito, no último sábado, no bar Ponto Final, muitas pessoas revelaram a sua intenção de viajar neste meio feriadão. E dizemos “meio feriadão”, em função de que muitas são as repartições e empresas que trabalharão na sexta.

Neste nosso projeto de elaborar idéias para um mundo melhor, em nossas pesquisas, descobrimos que as pessoas ficam mais irritadas em alguns pontos específicos da terra em determinadas situações. O nível de tensão que ficou em décimo lugar, foi no engarrafamento do viaduto da Marechal. Não é balela, é científico!

Mas o mais interessante, é que em segundo lugar de todos os lugares estressantes, aparece surpreendentemente a casa de praia em dia de chuva.

Exatamente por isso, decidimos consultar o site climatempo (aquilo que o padre deveria ter feito antes de fazer aquela cagada homérica), e analisar as condições do tempo no feriado.

E as notícias não são boas.

Descobrimos que se você é um dos abastados que possui um apartamento em Camboriú/SC, vai acabar pegando cinco dias de chuva, sentado na sacada, vendo aquele Barco Pirata passar vazio na sua frente. Sem contar que ao chegar nas baladas, seu cabelo já estará cheirando a cachorro molhado. E se é para não pegar ninguém, é melhor você ficar em Curitiba e gastar a grana do combustível em Cerveja. Já imaginou?

Pois bem, mas se você não é da casta que possui o apartamento em Camboriú, você tem a opção de Matinhos/Pr. Aí a coisa é pior companheiro. A previsão do tempo também é das piores. Chuva durante todos os dias.

Mas no caso de Matinhos é pior. Imagina só você embarcando na sua Brasília com aquela sua sogra de camiseta de viscose, justinha nos braços. E sua mulher dizendo que você está indo rápido demais (a sua Brasília não passa de 57 km/h).

Então você chega na praia e solta seus filhos. Lá estão: Wesley, Washington, Wilson, Wildysnei e Weldiséia (esses últimos dois são gêmeos) correndo naquela poça de água do Rio Matinhos. Então, no final da tarde, enquanto sua sogra corta as unhas dos pés sobre o sofá que você comprou nas Casas Bahia, sua mulher, de bobys, entra na sala com a nova cor do cabelo que nem Van Gogh ousaria usar em suas telas. Quando vai começar o jornal nacional, para você saber como anda o caso Isabela, sua mulher tem um surto psicótico e começa a gritar com as crianças que estão sujando toda a casa de barro.

Ora meu amigo! Poupe-se dessa tortura.

Em vez disso, no sábado, dia 03 de maio, vá ao Teatro Fernanda Montenegro assistir a peça Analice em Busca do Homem Perfeito, tomando uma cervejinha e dando boas gargalhadas. E você ainda pode levar sua mulher. Qual a vantagem? Como a peça questiona a existência do homem perfeito, sua mulher pode largar mão de pegar no pé por causa dessa sua barrigona de cerveja. Quanto à sua sogra? Alguém vai ter que ficar cuidando das crianças remelentas. Melhor assim.

Se bem que, se você tem uma casa em Matinhos, uma Brasília, e cinco filhos com nomes que começam com “W”, além de uma sogra que ainda usa camiseta de viscose, eu tenho uma péssima notícia: Você é pobre cara, e não deve gostar de teatro.

E qual a diferença que isso faz?

Pobre é assim. Se o pobre consegue bater o cartão cinco minutos antes na sexta-feira, vai direto para a rodoviária aproveitar um “Finde Susse na Orla”.

Fazer o que?

De qualquer forma, como nossa intenção é um mundo com mais cerveja e menos violência, estamos disponibilizando aí a previsão do tempo para ricos e pobres.

E você poderia perguntar: E por que não fala para a classe média?

É que a classe média trabalha mais que pobre para tentar ser rico um dia, e não tem tempo para ficar fuçando nesse blogue aqui.

Fazer o que?

Obs.: Estamos publicando este texto na terça, para que de tempo de você correr atrás de um dos últimos ingressos para a peça, pois caso você não consiga, em Curitiba também vai chover. Mas no estacionamento do Shopping Novo Batel, ninguém se molha.

sábado, 26 de abril de 2008

MINHA PRÓPRIA TEORIA DA RELATIVIDADE II

Albert Einstein tinha razão.

A relação entre o tempo e os fatos, no que diz respeito às pessoas, escapa-nos à lógica.

Quem já não teve o dia flutuante, daquele tipo em que nossos olhos ficam desatentos, e que os pensamentos se acumulam como passageiros do terminal Pinheirinho?

Quem já não esqueceu de dar um bom dia, boa tarde ou boa noite?

Quem já não esqueceu o nome da pessoa com quem está falando, ou à quem está se referindo.

Imagino que esse tipo de gafe seja comum, e não seja coisa só minha. E isso não é nenhum problema. Normalmente somos bem compreendidos. O problema é quando essas coisas acontecem diretamente depois de algum fato marcante.

A minha própria teoria da relatividade é muito mais simples do que a do gênio, filósofo e poeta atômico. Minha teoria é pueril.

Você será perdoado se esquecer de dar bom dia ao seu vizinho, porém, se isso acontecer no dia seguinte em que você conseguiu comprar aquele carrão, a coisa não é mais tão simples assim. O vizinho logo estará pensando que você ficou metido por causa daquela merda de carro novo que você comprou. E ele nem sabe que é de segunda mão, e ainda é parcelado.

Você será perdoado se esquecer de cumprimentar com um entusiasmado olá aos seus colegas de trabalho, porém, se isso acontecer no dia seguinte da promoção que você recebeu, prepare-se, pois você virou um babaca da noite para o dia.

E não é diferente com os amigos. Ao chegar a um bar você pode até esquecer daquele aceno com a mão, que eles não ficaram magoados. Porém, se você esquecer disso, no dia em que você entrou de mãos dadas com aquela “gostosa”, prepare-se para os comentários.

E você está falando com aquela pessoa, quando o nome dela some (da mesma forma que sumiu o padre). Ok. Tudo certo. Mas Deus te livre disso acontecer na semana seguinte em que você lotou o teatro com aquela peça que ninguém acreditava. Pronto! Você virou uma estrela impertinente e metida.

Na realidade, o que se torna interessante, é que a imagem que têm de nós, depende imediatamente de nossos tropeços, de nossas limitações de nossas dificuldades. Quando tropeços se transformam em sucessos, limites em superações, e dificuldades se tornam dons, pronto, alguém um tanto quanto próximo haverá de dizer que mudamos.

Então, quando mudamos de carro, somos promovidos, ou mesmo partimos para um novo relacionamento, a forma com que nos olham é bastante relativa. Desde que você mude para melhor, seus vizinhos não haverão de falar que você virou “metido”.

E essa teoria me coloca a pensar:

Por qual razão eu estou escrevendo isso aqui?

Se mais de quinhentas pessoas lerem esse texto, pronto, eu virei um babaca.

Isso tudo por que eu esqueci de começar o texto com um sonoro e sorridente BOM DIA!

Um “até logo” mudaria sua opinião sobre mim?

sexta-feira, 25 de abril de 2008

O DIA EM QUE O BOI QUASE SE AFOGA (Samuel Rangel)

A imagem do Boi* se afogando é um tanto quanto difícil para as imaginações medianas, mas com uma seção de seis cervejas, ela começa a se tornar bem palpável. Aliás, essa minha imaginação regada a Skol, me permite quase ver as mesas dos bares lotadas de grupos de amigo. Sobre cada mesa, flutua um balão do tipo revista em quadrinhos, onde passam as imagens da conversa que predomina na mesa.

Ontem, atendendo ao gentil convite de Flavinho Banderat, estive no Tse Tse, acompanhado do elenco da Companhia Anjos Boêmios e mais alguns agregados. Dente esses agregados, a cênica presença de Pilo. Pilo é o percursionista que me acompanhava nos primórdios do Bardocelar, e foi um auxílio imprescindível na montagem da equipe musical da casa. Mas o que mais chama a atenção em Pilo é a graça natural que ele tem, ao falar, ao tocar, e principalmente no momento de contar uma história.

Exatamente sobre uma história que ele nos contou ontem, que tirou lágrimas hilariantes de nossos olhos, é que vou tentar contar, sabendo que esse desafio é ingrato, pois jamais um texto meu chegara aos pés das histórias contadas pelo Pilo.

Há muito tempo, Pilo que é quase um morador de Barra Velha, convidou Flavinho e Boi para tocarem no verão naquela praia. Já nos primeiro dias, Pilo acordava cedo e olhava para a dupla de dorminhocos que não demonstrava qualquer interesse por um banho de mar.

Assim foram os primeiro dias, até que Pilo então resolveu colocar o seu jet ski na água. Então a dupla se interessou.

Flavinho, demonstrou pouca intimidade com as coisas do mar quando vestiu a sua bermuda “tomara que caia”, mas não se fez de rogado. Como todo bom rato da areia, ofereceu-se para acompanhar Pilo em uma disputada partida de Frescobol.

Raquetadas pra lá e boladas nas meninas depois, a raquete escapa da mão de Flavinho, e como um padre pendurado em bexigas (imagem que insiste em não abandonar minha cabeça), segue direto rumo ao mar. Flavinho, sempre disposto e voluntário, segue correndo em direção ao mar para resgatar a raquete. Já na primeira onda que superou a perigosa marca de trinta centímetros, Flavinho se embolou feito um rocambole. E como a praia de Barra Velha possui um fundo bem irregular, lá estava Flacinho quase se afogando, a uma distância de não mais que cinco metros da beira da praia.

Flavinho manteve a calma, mas a raquete foi embora, exatamente diante dos olhos de Pilo que já começava a perguntar: O que é que eu fui fazer?

Como o Frescobol ficou difícil com uma raquete (eles até tentaram rebater a bola e jogar a raquete para o outro antes que a bola chegasse, mas a marca no supercílio de Flavinho, demonstrou que era uma idéia de jerico), eles então resolveram colocar o jet ski na água. O primeiro a embarcar na garupa de Pilo (que foi piloto de moto), foi o nosso consagrado Boi.

Pilo, louco, mas precavido, vestiu apertado o colete salva-vidas em Boi, o colocou na garupa e seguiu mar a dentro, singrando os mares revoltos da Santa Catarina, escalando audaz as ondas que se erguia em seu caminho, e fazendo aquele barulho infernal que é uma merda.

Quinze minutos após, Pilo, o sábio, promove o desembarque de Boi com o seu famoso golpe ninja do cavalo de pau a beira mar. Nesta manobra que merece uma nota três no free style, o carona é arremessado como um saco de batatas rumo à areia.

Boi, após cortar os céus por uma fração de segundos, cai e ficou imóvel.

A uma distância de pouco mais de dois metros, toda a legião de amigos que assistiam a cena, olhavam estranhamente para Boi, imóvel, e com os olhos fechados, com os braços traçados sobre o peito. Seu queixo batia e ele parecia sussurrar algo.

Sem molhar os pés, os amigos se aproximaram um pouco mais, e indagaram a Boi o que se passava.

Boi, de coletes salva-vidas (importante lembrar), em absoluto e resignado desespero, informou que estava morrendo afogado, pois não sabia nadar.

Os amigos receberam a notícia como uma irreverente piada, pois não podia ser verdade, mas ele manteve a atuação dramática durante mais cinco minutos. Enquanto muitos rolavam na areia gargalhando compulsivamente, Pilo manobrava o jet ski para fazer o salvamento mais próximo da areia que a história da humanidade já testemunhou.

Ao chegar perto, com o jet ski quase tocando o fundo, começou a passar instruções para que Boi mantivesse calma, e esticasse os braços para que o povo o puxasse para fora da água. Boi se recusava e continuava a balbuciar sua própria extrema unção, diante dos olhos incrédulos dos seus amigos.

Boi então se revoltou com os amigos insensíveis: “Tudo bem! É assim? Vocês riem enquanto olham para o seu amigo se afogando”?

Os amigos então pedem que Boi estique o braço mais uma vez, e nessa hora, Boi profere a frase que ontem tirou o fôlego dos que estava à mesa:

Deixem eu ficar aqui quietinho. Assim a morte chega mais devagar.

Nessa hora, é que foram descobrir que Boi realmente tem pavor de água, e realmente acreditava que estava morrendo.

Então Pilo, o sábio, mas com certo sentimento de culpa pelo lançamento do Boi rumo a sua própria sorte, diz a Boi: “Ok. Mas então faça o seguinte. Apenas estique as pernas que demora mais tempo para você se afogar”. Boi aceitou o conselho, e quando esticou as pernas, viu sua cintura emergir para fora d’água, enquanto os amigos faziam um festival “à milanesa” de tanto rir.

E assim são as criaturas.

Se convidar boi para um banho de piscina, não esqueça das bóias de braço e de ministrar uma dose generosa de Passiflorine para a criatura antes dele entrar na água.


* Boi é o nosso querido João Carlos Jardim, prestativo componente do elenco da Companhia Anjos Boêmios, mas que não sabe nadar e tem fobia de água.