segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

ESCOLHAS (Samuel Rangel)

Sinto-me um tolo vez por outra, ao me perceber tentando dividir uma garrafa quase vazia em dois copos. Lá estou eu novamente deitando o gargalo quase seco sobre um copo sedento, mas infeliz no seu desiderato. Penso que a alquimia poderia trazer-me pela mão e combinar algum hidrogênio descuidado com as moléculas de oxigênio que sonho serem minhas. Mas de nada adianta. Teremos três certezas apenas: os dois copos quase vazios e a sede que os atormenta.

E não é diferente com a vida. Tentando dividir as palavras entre o advogado e um escritor sem registro nem permissão. Em outro momento não sei se componho alguma melodia que revele minha alma, ou se rabisco em algum papel o desenho que contaria como ela chegou aqui.

Há ainda a divisão entre o pai e o filho. Não tenho certeza se dedico o meu primeiro abraço ao meu pai, ou se dedico ao meu filho. Mas como nenhum amor é eminentemente felicidade, e não há uma só partida que não revele novos campos, aprendo a boa lição da garrafa vazia. Por mais que tentemos inundar a tudo, estaremos limitados pela nossa capacidade.

Por mais que eu almeje desesperadamente ser um grande homem, jamais serei dois.
Por mais que eu deseje todas as artes, jamais comporei a música virtuosa enquanto minhas mãos escrevem cartas de sentido. E mesmo dentro de cada compartimento desta imensidão chamada vida, não será diferente, pois ao tentar versos, perderei o poder da crônica, e se crônica tentar buscar, serei obrigado a esquecer das rimas.

Mas tanto quanto as lições que julguei tolas no ginasial, estas também são de máxima importância.

Tanto quanto a criança dos anos setenta, que escolhia o pássaro mais colorido no aviário, deixando de escolher o de melhor canto, continuo a cada escolha abdicando de algo não menos importante.

Para cada sim haverá mais de um não.

Para um querer, uma infinidade de rejeições.

Para passear pela teclas do meu piano, terei que silenciar as cordas do meu violão.

Para um beijo, alguns segundos em que deixarei de respirar.

Para cada chegada uma partida.

Para cada passo, um pé deverá ficar atrás.

Para cada nova palavra, uma outra se perdeu no tempo.

Para cada encontro um desencontro.

Para cada casaco novo, um outro se tornou velho.


Para cada eu te amo, haverá de se dizer um eu te esqueço.

E enquanto este ano agoniza, um outro prepara seu primeiro grito.

Assim é.

E na Comédia Del Arte encenada pela vida, no desempenho de nosso papel, para termos a profundidade dos Velhos, teremos que deixar a graça dos Zanis.

Então que seja.

Que venha tudo que há de novo, pois ainda que não possa tocar o passado, eu sempre poderei reverenciá-lo em minhas lembranças.

Que venha o desconhecido, como forma de dar seqüência aos passos que me trouxeram até aqui.

Que venham alegrias e tristezas, chegadas e partidas. Sim. Que venham essas escultoras caprichosas do tempo, que com maior ou menor delicadeza, vão moldando em minha alma o rosto de minha história.

Aceitarei os golpes doloridos da realidade quando o formão afiado arrancar pedaços desta minha alma, mas sei que logo após, ou quem sabe mais tarde, quando o tempo for exato, essas artistas virtuosas haverão de manipular algo com a suavidade do algodão para tornar lisa a sua obra.

Que abram-se as cortinas desses próximos dias, meses e anos, e que a grande Direção do Universo nos permita ter uma bela história para contar ao público.

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