domingo, 19 de agosto de 2007

O CENTAURO - Por Samuel Rangel

Foto gentilmente cedida pela fotógrafa Ju Ribas


Junto com alguma tristeza e esses meus cabelos brancos, a vida cuidou de me trazer alguma experiência. Com cada erro tolo de uma criança preocupada em ser especial, um tapa estalado fazia questão de nos ensinar nosso lugar. Cada oração profana dirigida ao destino, implorando uma história fabulosa, ecoava no chão de nossa existência simples, humilde e verdadeira.

Perdido entre os vales da tolice e da desilusão, errando pelo mundo da verdade, nós, um pouco homem e um pouco animal, perdemos o domínio do racional e tentamos sentir cheiros, seguir instintos, espreitar por entre a vida oportunidades de ser perfeito.

Não é o que somos, pois com a sabedoria que só a razão tem, ela senta e espera. De tempos em tempos o centauro vê a investida da razão, com vestes bordadas em tons mórbidos, carregando em seu estandarte a estampa de verdades temperadas entre o amargo da desilusão e o doce do aconselhamento. De tempos em tempos o centauro não poderá se mover, e absolutamente inerte, ele irá observar um emaranhado de caminhos ao seu redor. A cabeça pensa e tenta coordenar seus movimentos, mas seu corpo confuso não a obedece. Enquanto a razão, com o dedo branco lhe aponta um sentido, com a aflição do animal suas pernas titubeiam. Socam o chão com força no ruído surdo de palavras que não conseguem dizer. Tentam fugir da razão implorando separar-se da parte humana.

Parecendo querer derrubar de seu dorso o lado racional, a parte animal usa de sua destreza para mostrar sua fúria e inconformismo. E a razão não fica inerte. Sem opção, como de costume, tentando dominar a situação, passa a castigar o lado animal, e em verdadeira aberração, usa de seu açoite para repreender a parte revolta. A cada golpe, a razão, sente em seu próprio corpo a dor do castigo, e de forma tão contundente quanto à parte irracional, começa a se revoltar, aumentando os golpes. Desespero. Desespero louco. Loucura que leva o centauro ao chão. Esvaído em sangue moral, o pobre animal se prostra ao chão. Ali, na mais rasteira existência, agredido e ofendido pela sua própria natureza, razão e animal percebem que não podem se apartar um do outro. Na desilusão do impasse insolúvel, a harmonia se revela impossível, e na inércia que só a impotência causa, de forma contraditória, inexplicável e absurdamente inesperada, a paz retorna. Uma paz que traz em si um semblante triste, pois não é a paz que a solução proporciona. É a paz da complacência. A paz entre suserano e vassalo. A paz entre senhorio e escravo. Paz entre domínio e submissão. Sem que se possa entender a quem o domínio se ofereceu, recomposto de suas dores e cansaço, o centauro voltará a se erguer, não tão impávido como antes da luta. Não tão afoito. Nem tão racional e nem tão animal, ele se erguerá sobre suas patas e uma harmonia forjada irá se estabelecer por algum tempo. Consciente de seus limites, cabeça e pernas tentarão evitar um novo confronto. A cabeça não tentará impor de forma tão rigorosa os caminhos da razão, e as patas não tentarão novamente embrenhar-se pelos caminhos do instinto. Assim levarão por algum tempo o corpo daquele Ser por entre os vales da vida, até que nova luta será travada. Sem solução o problema se repetirá, mas cada vez de forma mais tênue, menos violenta e menos prolongada. A solução final virá com o tempo, quando as pernas do animal, surradas pelo tempo, perderem a avidez da juventude, e quando a cabeça grisalha, aprender que não pode cavalgar um animal que não ame.

Triste e belo destino de um sagitário, que deverá esperar que o tempo lhe ensine a ser feliz, mas que por outro lado, tem a benção de não ser dominado por este ou aquele mundo. O sagitário não seguirá os caminhos da razão, e por isso muito sofrerá, porém, como estará marginando o mundo da ilusão, terá um horizonte maior e mais colorido. Maravilhosamente, o sagitário terá o privilégio de pensar como homem nas coisas que só o animal pode ver.

Samuel Rangel – 12/DEZ/2002

2 comentários:

adelia disse...

Auto-retrato?
Poesia?
Auto-análise?
Reflexão?
Poucas são as pessoas que conseguem escrever dessa forma, sem medo do espelho, se colocando inteiras no texto, com uma emoção tão grande, que mal cabe nele mesmo.
O centauro é um dos meus preferidos!!!!!!
Drica

Tuca Castro disse...

Um shake de filosofia, astrologia, mitologia e psicologia;um tanto qto seu e outro tanto de todos outros (sagitárianos).
Um paradoxo existencial que jamais poderia ser escrito por e/ou em terceira pessoa... Algo que só quem é pode saber, porém vc conseguiu traduzir em palavras um retrato fiel pintado à mão com "sangue moral" - o seu sangue! é por isso que vc vale tanto e é a isso que vc deve tantas habilidades.